← Voltar ao início Milhares de anos atrás dos montes

Trás-os-Montes: a Terra Fria

Uma região que a sua própria geografia isolou — e que, por isso mesmo, guarda alguns dos vestígios humanos mais antigos da Península Ibérica.

Os primeiros sinais humanos

Muito antes de haver nome para esta terra, já havia mãos a gravar pedra. No Vale do Côa, perto de Vila Nova de Foz Côa, encontram-se milhares de gravuras rupestres a céu aberto, feitas ao longo de mais de 20.000 anos — entre o Paleolítico Superior (cerca de 25.000–10.000 a.C.) e a Idade do Ferro. Cavalos, auroques, cabras-monteses e veados foram entalhados nas rochas de xisto às margens do rio Côa, com um realismo que ainda hoje impressiona arqueólogos.

Gravuras rupestres paleolíticas em rocha de xisto no Vale do Côa
Gravuras rupestres no Vale do Côa — figuras de animais entalhadas em xisto há mais de 20 mil anos.

Estas são consideradas as primeiras obras-primas da humanidade em Portugal — e uma das maiores concentrações de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo.

O sítio esteve prestes a desaparecer sob as águas de uma barragem projetada nos anos 90; a descoberta pública das gravuras, em 1994, travou a obra. Em 1998, a UNESCO classificou o Vale do Côa como Património Mundial — o primeiro parque arqueológico português.

Os castros: aldeias fortificadas da Idade do Ferro

Séculos mais tarde, as terras altas de Trás-os-Montes encheram-se de castros — povoados fortificados de planta circular, construídos em granito e xisto, característicos do Noroeste da Península Ibérica. A região regista uma concentração particularmente densa destes povoados nas zonas de maior altitude, acima dos 750 metros, em concelhos como Montalegre, Boticas, Vinhais e Bragança.

Eram comunidades agropastoris, com metalurgia própria e uma cultura de influência céltica, organizadas em torno da criação de gado, da guerra e do artesanato. Muitos destes castros mantiveram-se habitados mesmo depois da chegada de Roma — um sinal de resistência que ainda hoje parece definir o carácter transmontano.

A romanização — incompleta e à sua maneira

Roma chegou a Trás-os-Montes através de uma rede de vias — as chamadas Vias Augustas — que ligavam Bracara Augusta (Braga) a Aquae Flaviae (Chaves, célebre pelas suas termas e pela ponte romana ainda em uso) e daí até Bragança. Ao longo destas estradas surgiram pontes, marcos miliários e inscrições em latim que ainda hoje se encontram em vilas como Favaios.

Ponte romana de Trajano sobre o rio Tâmega, em Chaves
A ponte romana de Trajano, em Chaves (a antiga Aquae Flaviae) — ainda hoje em uso, quase dois mil anos depois.

Mas a romanização desta terra foi, comparada com o litoral, lenta e parcial: estudos arqueológicos ao território de Trás-os-Montes Oriental identificam sinais claros de romanização em pouco menos de metade dos castros inventariados na região. É um detalhe revelador — mesmo sob o Império, esta continuou a ser uma terra que resistia à uniformização.

Terra Fria, Terra Quente

Geograficamente, Trás-os-Montes divide-se em duas metades de temperamento oposto. A Terra Fria é o planalto de invernos rigorosos onde nasce o vento Zirbo — paisagem de xisto e granito, castanheiros centenários e aldeias de pedra. A Terra Quente estende-se pelos vales mais amenos do Douro e do Sabor, onde o microclima permite culturas que o planalto recusa, incluindo, historicamente, o olival.

Olival e paisagem de montanhas em Trás-os-Montes
A transição entre planalto e vale — onde a Terra Fria cede lugar a um microclima capaz de sustentar o olival.

Foi este isolamento — a própria origem do nome “Trás-os-Montes”, a terra que fica atrás da cordilheira que a separa do litoral — que moldou séculos de austeridade, transumância e uma agricultura de subsistência transformada, com o tempo, em identidade.

Uma identidade que resistiu ao tempo

Nenhum símbolo ilustra melhor essa resistência do que o mirandês. Falado na região de Miranda do Douro, este idioma de raiz asturo-leonesa sobreviveu séculos de isolamento por transmissão oral, até ser “descoberto” pelo filólogo José Leite de Vasconcelos em 1882. Em 29 de janeiro de 1999, tornou-se, por lei, a segunda língua oficial de Portugal — um reconhecimento tardio de uma voz muito antiga.

~25.000 a.C.
Arte rupestre do Côa
Idade do Ferro
Castros nas terras altas
Séc. I d.C.
Vias romanas Braga–Bragança
1999
Mirandês, língua oficial